A chama não se apagou

 

(Regina Rocha) - Fotos: Arquivo ACF(Candeia)

 

Fundada por Candeia, a Escola de Samba Quilombo é expressão da resistência da cultura contra a mercantilização do carnaval

 

O Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo foi fundado em 1975 por Antônio Candeia Filho, o Candeia, inconformado com o rumo que as escolas de samba tomavam, submetidas aos ditames dos patrocinadores. Tornou-se um movimento de resistência na defesa das tradições culturais e manifestações artísticas populares e ainda hoje luta pela preservação desses ideais.

 

Um verdadeiro ícone na luta contra o carnaval comercial, a escola completa 32 anos no dia 8 de dezembro, data que será marcada com uma merecida comemoração pela insistência de um grupo de voluntários que batalham para mantê-la viva.

 

Quilombo vai estar também na programação do Dia Nacional do Samba – 2 de dezembro, este domingo, que no Rio é comemorado com o Pagode do Trem.

 

Quilombo e Candeia: histórias entrelaçadas

“Estou chegando. Venho com muita fé. Respeito mitos e tradições, (...) busco a liberdade, não admito moldes (...) minhas portas estão abertas, mas entre com cuidado. Aqui todos podem colaborar, mas ninguém pode imperar (...) Não quero títulos, não almejo glórias. Faço questão de não virar academia, tampouco palácio. Eu sou o povo.(...)”, diz o manifesto de fundação da Escola.

 

Seus sambas-enredos, sem exceção, fizeram referência a importantes personagens negros e acontecimentos relativos à história do negro brasileiro. Nei Lopes e Wilson Moreira, por exemplo, foram autores de dois dos grandes sambas da Quilombo: Ao povo em forma de arte (1978) e Noventa anos de abolição (1979).

 

É impossível dissociar a história da Escola com a de Antônio Candeia Filho, seu idealizador. Segundo Nei Lopes (no livro Sambeabá, da editora Casa da Palavra), a firme postura política do compositor portelense que morreu aos 43 anos, em 1978, começou a aflorar justamente em 1975, quando se reestruturou a militância pelos direitos dos negros.

 

Candeia estava descontente na Portela. Em documento para o presidente da Escola Carlos Teixeira Martins feito por ele, por André Motta Lima, Carlos Sabóia Monte, Cláudio Pinheiro e Paulo César Batista de Faria – em 11 de março de 1975 dizia: “Escola de samba é povo em sua manifestação mais autêntica. Quando se submete a influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo. Essas influências externas sobre as escolas de samba provêm de pessoas que não estão integradas no dia-a-dia das escolas.

 

Não é mais possível continuarem os integrantes da escola sem acompanhar de perto tudo que se passa na Portela”. E apontava uma série de sugestões, como a necessidade da Portela assumir posição de defesa do samba autêntico, que não foram sequer discutidas.

 

Candeia partiu então para a criação de uma escola que representasse um alerta contra as ameaças. No fim de 1975, Edgar Pires (Pintado, cunhado de Candeia) foi pedir apoio para a compra de instrumentos para seu bloco em Rocha Miranda – Quilombo dos Palmares. “Porque não uma escola de samba?”, questionou Candeia.

 

No dia 8 de dezembro nascia a Quilombo. Entre seus principais objetivos estavam o desenvolvimento de um centro de pesquisa de arte negra, atrair os verdadeiros representantes e estudiosos da cultura brasileira, organizar uma escola onde seus compositores ainda não estivessem corrompidos: uma escola que servisse de teto a todos sambistas, negros e brancos, na defesa do autêntico ritmo brasileiro.

 

Em 1976, a comunidade via em todos os fins de semana na quadra da escola grupos de capoeira, maculelê, afoxé e aplaudia artistas como Clara Nunes, João Nogueira, Guilherme de Brito, Paulinho da Viola. Com a boa vontade dos componentes, apresentava-se pelas ruas dos bairros vizinhos.

 

Em 1977, fechou o carnaval da Presidente Vargas: Segundo o professor da UFRJ João Batista, autor de Quilombo, uma Utopia?, por pouco a escola não rouba a cena da Beija-Flor: “desfilando livre e descontraída pela avenida, sem esquemas (...) a Escola de Samba Quilombo mostrou o verdadeiro papel de uma escola de samba e apresentou seu Carnaval de 77 visando apenas realizar a mais genuína festa brasileira”, registrou o jornal A Notícia.

 

Nesta época, marcaram profundamente dois acontecimentos, como conta João Batista: a festa dos estivadores e a dos trabalhadores da construção civil. Em cada ocasião reuniram-se por volta de 3 mil pessoas: “Há muito não se via tanta gente reunida e gente pobre, gente humilde. A partir de então a Quilombo passou a ser observada com mais rigor pelos órgãos de repressão”.

 

Candeia ao lado de sua esposa, Leonilda

Com a morte de Candeia, houve o esvaziamento do projeto. O contrato com o clube Vega foi rompido. A escola mudou-se para Acari. Ela fez desfiles memoráveis mas com dificuldades, saiu no carnaval até 2003, com interrupções e cada vez com menos atenção da imprensa. Aos poucos os artistas e intelectuais foram se afastando.

 

Mas João Batista acha que a semente germinou: “Quilombo, fiel às diretrizes traçadas em seu manifesto, segue seu caminho, fincado num dos redutos mais pobres do Rio de Janeiro. Como o Quilombo de Zumbi, a Quilombo de Candeia Vive”.

 

Com o empenho de fundadores como Pedro Carmo dos Santos e Feliciano Pereira, o Candeinha, e de novos diretores, como Wilson Correa, Cristina Morsche e Paulo da Silva Filho, a escola ganhou novo fôlego. Com a atual gestão de Jorge Coutinho, há o sonho da escola voltar a desfilar.

 

Quilombo para a comunidade

A escola se esforça para manter o elo com a comunidade. No dia 10 de novembro, abriu as portas de sua quadra na rua Ouseley, em Acari, para um dia de ação social. Assistência jurídica, serviço social, exames de vista, verificação da pressão arterial estavam entre as atividades oferecidas gratuitamente ao público, acompanhadas de atrações como o grupo de capoeira da escola e a apresentação do samba de raiz do Uto Tombo, grupo originário da Quilombo.

 

“Queremos resgatar o vínculo com a população para que as pessoas vejam a Quilombo também como um espaço de atividades sociais”, explicou o coordenador de Projetos Wilson Correia, anunciando que a escola pretende oferecer para a comunidade atividades como esportes, dança, artesanato,

teatro e informática. Todos os sábados, a partir das 14h, a escola organiza uma roda de samba na sua quadra aberta à comunidade.

 

Documentário registra a trajetória da escola

O propósito de resistência cultural e social da Quilombo venceu a barreira da utopia. Deixou marcas e sementes que ainda hoje, mais de 30 anos depois, germinam. Essa trajetória é o centro do documentário Quilombo - chama que não se apaga. Produzido com base em uma série de entrevistas com quem viveu e construiu aquele ideal e com os que ainda lutam pela sua preservação, o filme foi idealizado pelo sociólogo Bruno Bacellar e está sendo realizado pelo produtor de vídeo Luis Fernando Couto, a jornalista Regina Rocha e o assistente de produção Ricardo Telles. A conclusão está prevista para janeiro de 2008.

 

Pagode do Trem: Quilombo sai às 18h30 no vagão 1

Para quem conhece o tradicional Pagode do Trem – evento com que é marcado o Dia Nacional do Samba, 2 dezembro, no Rio de Janeiro não é novidade: é uma das mais bonitas e animadas festas do Rio. Composições saem no fim da tarde da Central do Brasil até Oswaldo Cruz recheadas de bambas e anônimos com a participação da velha guarda das grandes escolas e representantes dos diversos terreiros de samba carioca. Os arredores da estação são tomados por inúmeras rodas de samba, que animam o bairro até o amanhecer.

 

A Quilombo, pela primeira vez, terá um vagão só para ela. A saída do primeiro trem será às 17h30, com Marquinhos de Oswaldo Cruz, um dos idealizadores da iniciativa, no vagão 1. Sua composição é dividida com a Velha Guarda do Império, pagode da Tia Doca, Cacique de Ramos. As composições seguintes saem às 17h50, às 18h30 – nesta é que segue a Quilombo (no vagão 1) e às 19h10.

 

Em Oswaldo Cruz, além das 19 rodas de samba em locais tradicionais do bairro, haverá três palcos – um na Rua João Vicente, outro na Praça Paulo da Portela e mais um na Rua Atila da Silveira. Entre as atrações, Luis Carlos da Vila, Walter Alfaiate, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Almir Guineto, Diogo Nogueira, entre outros.

 

Edgar Pires (Pintado), cunhado de Candeia, João Batista, autor do livro Candeia: Luz da inspiração e Carlos Monte, que escreveu sobre a Velha Guarda da Portela. O busto de Candeia no centro da quadra da Quilombo, em Acari, que aos sábados organiza roda de samba e oferece atividades esportivas, culturais e serviços à comunidade.

 

Nova Escola

(Candeia)

 

Da manhã quero os raios do sol

Quero a luz, que ilumina e conduz

A magia, e a fascinação

Voa um poeta, nas asas da imaginação

A arte é livre e aberta, a imagem do ser criador

Samba é verdade do povo

Ninguém vai deturpar seu valor, canto de novo

Canto com os pés no chão

Com coração, canta meu povo

Meu samba, é bem melhor assim

Ao som deste pandeiro

E do meu tamborim

As cores da nossa bandeira

Traz o branco inspirado

Na simplicidade da paz

Sintetiza um mundo

De amor, e nada mais

Simbolizado no dourado e no lilás

Meu samba, é bem melhor assim

Ao som deste pandeiro

E do meu tamborim.