Aumento da desigualdade

 

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até o ano passado os negros representavam 54% da população do país, mas eram só 17% dos mais ricos. Os negros também eram majoritários no grupo 10% mais pobre, com renda média de R$ 130 por pessoa na família.

 

Nos últimos 10 anos, a população negra (pretos + pardos) empobreceu ainda mais. Em 2004, 73,2% dos mais pobres eram negros, patamar que aumentou para 76% em 2014. Esse número indica que três em cada quatro pessoas que estão na parcela dos 10% mais pobres do país são negras.

 

Os brancos eram 26,5% dos mais pobres em 2004, e sua participação nessa fatia da população caiu para 22,8% em 2014.

 

Mesmo sendo maioria na população brasileira, nesses tempos de golpe e retirada de direitos elementares do conjunto da sociedade, a expectativa é que a realidade dos negros e negras no país fique cada vez pior. Além do que o governo do golpista Michel Temer é marcado pela ausência de representatividade negra, o que chamou a atenção do alto comissário de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Zeid Hussein, que apontou:

 

“Esse déficit de representação na cúpula do poder afeta toda a sociedade: parlamentos, locais de trabalho no setor público e privado, escolas, tribunais, imprensa, todos os lugares em que às vozes dos afrodescendentes são dadas com muito peso.”

 

As mulheres negras (pretas + pardas) são as que mais sofrem com o machismo e o preconceito na sociedade brasileira. E também são as que experimentam os piores indicadores sociais hoje no Brasil, apesar dos avanços recentes, como a diminuição da pobreza extrema por meio de políticas de segurança alimentar e nutricional, de transferência de renda, de elevação real do salário mínimo e de aumento da formalização da mão de obra, entre outros. Estudos recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que as mulheres negras ganham, em média, 40% da remuneração dos homens.

 

E o Mapa da Violência 2015, produzido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), a pedido da ONU Mulheres, revelou que as negras também são as maiores vítimas da violência doméstica e de violência letal: o índice de violência cresceu 54,2% entre 2003 e 2013, ao passo que o das mulheres brancas caiu 9,2%. As mulheres negras representam 68% das mulheres encarceradas hoje no Brasil, segundo o Conselho Nacional de Justiça, em 2015.

 

Negras não têm vez na política

A análise do perfil das candidaturas às eleições deste ano feita pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) confirmou o sexismo e o racismo das estruturas de poder no Brasil. Das 493.534 candidaturas em todo o país, sendo 156.317 do sexo feminino, apenas 14,2% (70.265) eram de mulheres negras concorrendo ao cargo de vereadora e 0,13% (652) ao de prefeita – considerando-se “negra” o somatório das variáveis “pretas” e “pardas”, o número é ainda menor: 0,01% (60) para prefeitura, 0,03% para vice-prefeitura (135), 2,64% (13,035) para o cargo de vereadora.

Com relação aos homens negros (pretos + pardos), eles representaram 28,8% das candidaturas para prefeitura, 30,1% para vice-prefeitura e 33,4% para o cargo de vereador. Os partidos que mais tinham candidaturas de mulheres negras (pretas + pardas) foram o Partido da Mulher Brasileira (PMB) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). Entre os grandes partidos, a proporção de candidaturas de mulheres negras foi a seguinte: 16,4% no PT, 13,8% no PSB, 13% no PDT, 12,3% no PSDB e 12,1% no PMDB. Mas considerando apenas as candidaturas que se autodeclararam pretas, os números são ainda menores: 4,5% no PT, 2,4% no PSB, 2,3% no PDT, 2,2% no PSDB e 2% no PMDB.

 

De acordo com o IBGE, São Paulo, Bahia e Minas Gerais sãos os estados que mais têm mulheres negras em sua população: nestes, o percentual de mulheres negras candidatas para todos os cargos foi de 7,8% em São Paulo (6.678), 24% na Bahia (8.759) e 15% em Minas Gerais (11.724).

 

Sub-representação

Os dados também demonstram a tendência à sub-representação de mulheres em geral (brancas, pretas, pardas, amarelas e indígenas): em todo o país, foram 12,6% de candidaturas ao cargo de prefeita, 17,4% ao de vice-prefeita e 32,9% ao de vereadora. Ou seja, 87,4% das candidaturas a prefeituras no país foram compostas por homens. E as mulheres representam 51,04% da população brasileira, e a cota mínima obrigatória para os partidos para candidaturas femininas é de 30%. Quase todos os partidos cumpriram a cota legal – embora nenhum tenha atingido 50% –, exceto o PCO, que possuía 29,4% de seus candidatos do sexo feminino. Mas quando se observa a distribuição entre os cargos, esse comportamento se mantém somente para o cargo de vereador. Para a prefeitura, somente os partidos PMB, PSTU e NOVO tiveram 30% ou mais de candidatos do sexo feminino, e para vice-prefeitura, apenas o PMB atingiu essa cota.