Manifesto do Movimento Negro Brasileiro

 

"Neste mês histórico em que se comemora o Dia Internacional da Mulher e, inspiradas nas histórias de centenas de mulheres negras na luta contra a escravidão, na preservação das nossas religiões de matrizes africanas, na manutenção de nossa cultura, entre tantos elementos a mais, as organizações sociais que conformam o Movimento Negro Brasileiro, reunidas sob a égide da convergência, vêm a público manifestar sua posição consensual contra a tentativa de golpe articulada pelos setores conservadores com apoio da mídia e por meio de ações de parte do Judiciário", diz documento subscrito por dezena de entidades, núcleos de estudos, centros de cultura e pesquisa e parlamentares de todo país. Entre eles a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros; Agentes Pastorais Negros; Centro Nacional de Africanidades e Resistência; Movimento Negro Unificado e União de Negros pela Igualdade (Unegro), a Secretaria Nacional de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e Universidade Federal do Paraná.

 

Outros pontos do manifesto da convergência de lutas de combate ao racismo no Brasil

 

1 - Os setores que protagonizam esta tentativa golpista historicamente defendem propostas contra as bandeiras de luta do movimento negro e popular: Defendem a redução da maioridade penal; são contra as cotas e as ações afirmativas; atuam para retirar as perspectivas racial e de gênero dos planos de educação entre outros;

 

2 - Pressionam pela imposição de uma agenda neoliberal; pela entrega do Pré-Sal e do patrimônio nacional às empresas estrangeiras e o pleno atendimento das demandas do grande capital financeiro;

 

3 - Estes setores defendem o recrudescimento das políticas repressivas, da violência policial e do genocídio da população negra;

 

4- Combatem as reivindicações das mulheres negras, a descriminalização do aborto, pregam o esvaziamento das poucas políticas públicas direcionadas às mulheres, notadamente as mulheres negras, tais como as trabalhadoras domésticas;

 

5 - Reconhecemos que os significativos avanços promovidos contra a miséria extrema, a fome, a inclusão de milhares de jovens negros e negras nas universidades além da implantação de políticas de promoção e igualdade racial, são, entre outros fatores, elementos que levam as elites brasileiras se unirem e atacarem o atual governo.

 

6 - O governo federal, alvo das incursões destes setores mais conservadores, ao invés de enfrentá-los, continua sucumbindo e impondo uma agenda muito similar ao de seus algozes, sobretudo nos aspectos econômicos e em iniciativas tal qual a lei antiterrorismo.

Somos contra o impeachment da atual presidenta e não toleraremos qualquer tentativa de golpe à nossa frágil e insuficiente democracia. Mas é preciso uma mudança de rumo desse governo. A população negra não pode pagar pela crise econômica e política do país. O Movimento Negro brasileiro afirma uma agenda de enfrentamento à política genocida, contra a redução dos direitos trabalhistas, contra a reforma da previdência, contra os cortes em programas sociais como saúde e educação.

Nós que atuamos na luta contra o racismo e as desigualdades étnico-raciais, temos a convicção que qualquer ruptura com o frágil e ainda pouco eficaz processo democrático atingirá de forma mais grave o conjunto da população negra.

 

Somos a favor da investigação de todos os casos de corrupção, mas não ao uso oportunista disso para impor uma agenda anti-popular que penalize ainda mais nosso povo negro.

 

Trazemos em nossa ancestralidade toda uma história de luta e resistência que estamos dispostos a honrar neste momento tão importante na história deste Brasil que é nosso e construímos com cada gota do nosso suor.

A solução para a crise está na adesão às propostas históricas dos movimentos populares e do movimento negro.

Em frente pela esquerda. Retrocesso nunca mais.