O Mestre-Sala dos Mares

 

Composição: João Bosco/Aldir Blanc

(Matéria: Regina Rocha) - (Fotos: Divulgação)

 

Há muito tempo nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu

Na figura de um bravo marinheiro

A quem a história não esqueceu

Conhecido como o almirante negro

Tinha a dignidade de um mestre sala

E ao navegar pelo mar

com seu bloco de fragatas

Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas

Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas

dos negros pelas pontas das chibatas

Inundando o coração de toda tripulação

Que a exemplo do marinheiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias

Glória à farofa, à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o almirante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

 

*O que esta sublinhado foi modificado pela censura durante a ditadura para: Na figura de um bravo feiticeiro; Conhecido como o navegante negro; E ao acenar pelo mar na alegria das regatas; dos santos entre cantos e chibatas; Inundando o coração do pessoal do porão; Que a exemplo do feiticeiro gritava então; Salve o navegante negro.

 

Mas você sabe quem foi o Almirante Negro?

 

Ele protagonizou, há cem anos, um importante episódio na história das lutas dos marinheiros – 90% negros – contra as degradantes condições de trabalho e o uso de violentos castigos corporais: a Revolta da Chibata. O fato histórico, ocorrido no dia 22 de novembro de 1910, foi lembrado no carnaval de 2010 no Cordão da Bola Preta e em meio ao enredo da Vila Isabel.

 

Mas as comemorações no ano do centenário da Revolta da Chibata vão além. A Secretaria de Igualdade Racial da CUT-Rio está preparando uma série de atividades para estimular as entidades sindicais a comemorar o centenário da revolta e planeja exposições e debates.

 

Armada brasileira

Há cem anos, militares se rebelaram contra castigos físicos adotados pela Marinha num movimento conhecido como Revolta da Chibata, liderados pelo Almirante Negro, o marinheiro João Cândido.

 

Na noite da revolta, em 22 de novembro de 1910, João Cândido e 2.300 marinheiros tomaram grandes embarcações da armada.

 

Filho de ex-escravos, ele nasceu em 1880, no Rio Grande do Sul, e morreu em 1969, no Rio de Janeiro. Em 1895 fez sua primeira viagem como aprendiz de marinheiro. Em 1909 foi à Grã-Bretanha para acompanhar a construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro e tomou conhecimento da revolta havida em 1905 dos marinheiros russos do encouraçado Potemkin, por melhores condições de trabalho.

 

250 chibatadas!

Apesar de abolido pelo regime republicano, o uso da chibata como castigo na Armada brasileira continuava a critério dos oficiais. Centenas de marujos, 90% negros, tinham o corpo retalhado pela chibata. Baixos soldos e má alimentação foram os outros ingredientes para o crescimento do clima de tensão.

 

“Não por coincidência, esse costume brutal repetia as atrocidades da escravidão, pois cerca de 90% dos marinheiros eram negros”, argumentou Paulo Paim ao defender a instituição do ano de 2010 como “Ano Nacional do Centenário da Revolta da Chibata”, em projeto de lei de 2009 no Senado.

 

No movimento para pôr fim à chibata na Marinha, os marinheiros tentaram até uma audiência de João Cândido com o presidente da República Nilo Peçanha. Mas acabaram por decidir pela realização de um motim, que foi antecipado pela punição com 250 chibatadas em um marinheiro. O castigo continuou com os homens desmaiados.

 

No dia 22 de novembro de 1910 eclodiu a revolta. João Cândido deu início ao levante, assumindo o comando do encouraçado Minas Gerais, e sendo designado à época pela imprensa, Almirante Negro.

 

Por quatro dias, os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro voltaram seus canhões para a Capital Federal. A rebelião terminou com o compromisso do governo de abolir de vez a chibata e anistiar os integrantes da revolta. Mas o governo traiu o acordo: João Cândido e os outros foram presos, expulsos e alguns até mortos. Saiu da Marinha sem qualquer direito.

 

Pobre e esquecido, descriminado até o fim da sua vida, mais de 60 anos depois da revolta, aquele que um dia foi mencionado como Almirante Negro morreu pobre, de câncer, no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, em 1969, aos 89 anos.