Racismo, discriminação e violência contra a mulher são temas de debates,

rodas de conversa e música, em evento organizado pelo Sintufrj

A Coordenação de Políticas Sociais realizou dois eventos em um para marcar o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher (25/11) e o Dia Nacional da Consciência Negra (20/11), na sexta-feira, 27 de novembro, no Espaço Cultural do Sintufrj. As atividades constaram de oficinas, exibição de filme, roda de conversa e shows. A cantora Elisa Fernandes e o grupo de samba de raiz do Projeto Unificar brindaram os presentes com um repertório de MPB especial para a ocasião.

 

A atividade serviu também para que o Sindicato lançasse a campanha contra o assédio moral na universidade. “Estamos abrindo essa campanha porque o assédio moral é outra violência contra as mulheres e contra todos os trabalhadores. Isso acontece na nossa universidade e em todo o serviço público. Em todos os lugares da universidade estaremos combatendo esse mal horrível e que destrói a vida das pessoas”, anunciou a coordenadora de Políticas Sociais, Marli Rodrigues.

 

Além de Marli, a coordenadora-geral do Sintufrj Ana Célia e a coordenadora Delma Dutra saudaram os presentes. Ana Célia destacou a participação no evento da direção do Sindicato dos Funcionários da Universidade Federal de Juiz de Fora, e afirmou que é um compromisso da gestão valorizar a cultura negra e o combater à discriminação e ao racismo.

 

“Lamentavelmente no calendário de eventos da UFRJ não consta a celebração do Dia Nacional da Consciência Negra. Mas o negro precisa ocupar seu espaço na sociedade e caminhar de cabeça erguida em todos os lugares. Estamos na luta contra toda forma de violência e discriminação e queremos que as mulheres não tenham vergonha de falar sobre qualquer assédio que sofram”, afirmou Ana Célia.

 

“Esse tipo de movimento que a gente acaba trazendo para dentro da universidade só tende a enriquecer o nosso dia a dia. E estamos aqui junto com vocês para contribuir no debate e no combate à violência contra a mulher e também em relação à valorização e à luta dos direitos dos negros. O racismo e o sexismo ainda existem, batem na nossa porta, e temos de estar inseridos nos movimentos que os combatem. Já o assédio moral é uma campanha necessária, porque hoje, ontem e amanhã lidamos com ele na nossa universidade”, afirmou Delma Dutra.

 

Convidadas palestrantes

As convidadas para a mesa do evento foram a técnica-administrativa em educação da UFRJ Josete Lima, a dirigente da Associação dos Trabalhadores Terceirizados da UFRJ (Attufrj), Teresinha Costa, a estudante de engenharia Taís Oliveira, do Coletivo de Mulheres da UFRJ, e a doutoranda Eloá Santos, do Movimento de Mulheres Olga Benário.

 

Josete Lima, técnica-administrativa com 30 anos de universidade, fez um relato de sua experiência pessoal. Até 2006 ela nunca havia se preocupado com o movimento negro, mas agora se dedica a valorizar e a enaltecer a cultura e o direito dos negros.

 

“Tive uma carreira bem reconhecida, exerci cargos de chefia e fui diretora de Pessoal durante 10 anos, mas não fugi do racismo e dos preconceitos. Mas, em 2006, quando fui convidada para fazer um livro sobre racismo e que pesquisei muito e adquiri conhecimento da história dos negros, tive então a oportunidade de ter orgulho de ser negra. Depois dessa experiência, o meu objetivo na universidade foi promover eventos ligados à consciência negra e à história dos negros no Brasil. A minha luta é para que sejamos respeitados, porque o negro construiu esse país. Temos de nos conscientizar e saber do nosso valor e lutar contra a discriminação e o racismo através do conhecimento. A minha autoestima tem que estar acima de qualquer discriminação”, disse Josete.

 

Teresinha Costa, da Attufrj, fez questão de afirmar que aquela era a primeira vez que participava de um evento sobre os temas, e estava muito satisfeita. Ela relatou que desde criança foi discriminada, e com a militância na associação pode combater o racismo. “Apareceu essa oportunidade para ir contra isso e hoje estou brigando contra o preconceito e essa vergonha que é o racismo”.

 

Taís Oliveira, do Coletivo de Mulheres da UFRJ, apresentou números e dados para confirmar a discriminação da mulher negra na nossa sociedade. Ela destacou que a maior violência existente na universidade é contra as trabalhadoras terceirizadas. A estudante informou que o Coletivo criou um formulário que pode ser respondido anonimamente por toda a comunidade universitária, cujo objetivo é conhecer a situação das mulheres tendo em vista procurar formas de melhorar sua vivência na universidade.

 

Eloá Santos, do Movimento de Mulheres Olga Benário, reforçou que a mulher já é discriminada por ser mulher, e sendo negra sofre duplamente. “Por ser mulher e negra está fadada à violêncàia e à morte. É importante que saibamos sobre as centenas de mulheres que morrem nas mãos de seus companheiros”, observou. Eloá forneceu dados sobre o assassinato de negros, e afirmou: “O silêncio, a discriminação e o preconceito estão matando pessoas, mulheres e jovens negros. Não podemos nos calar”.

 

Troca de experiências

Na roda de conversa, dez pessoas puderam fazer relatos de suas experiências e externar suas opiniões. Nas cadeiras haviam bolas com frases, e com base na frase a pessoa fazia sua observação. Foi uma boa oportunidade para alguns socializarem violências sofridas por racismo e discriminação de uma maneira geral.

 

A técnica-administrativa Lúcia leu a frase “Violência doméstica: o silêncio é o maior aliado do opressor” e relatou seu caso. “Fui torturada durante 15 anos mentalmente pelo meu marido. Até o dia em que resolvi reagir e ir à delegacia da mulher. Fiz um boletim de ocorrência. Com a ação realizada, formou-se um processo e a juíza determinou que ele saísse durante 15 dias e voltasse”.

 

O estudante Daniel, do Coletivo Zumbi, narrou que foi à praia durante a semana e a polícia o abordou com a justificativa de que ele estava em atitude suspeita. “Inquiri os policiais. Falei que estavam me abordando pelo fato de ser negro. Havia outras pessoas na praia e eles só vieram falar comigo. Pelo fato de sermos negros já somos vistos como bandidos. Por isso temos de nos impor, não podemos baixar a cabeça”, afirmou.

Dia Internacional contra a Discriminação Racial

Por conta disso, na segunda-feira, 21, o GT-Carreira Sintufrj realizará reunião para discutir a seguinte pauta: maioridade penal, cotas na UFRJ e violência contra jovens negros. Local: Espaço Cultural do Sindicato. Horário: às 9h.

 

Histórico

“O Dia Internacional contra a Discriminação Racial foi instituído pela ONU em 1969 para defender a igualdade dos povos. Do ponto de vista histórico, a data surgiu logo depois do massacre ocorrido na cidade de Sharpeville, na África do Sul, quando a polícia do Apartheid matou 69 negros e feriu 180, no dia 21 de março daquele ano.

A data serve como alerta para aqueles que ingenuamente acreditam na superioridade de raças, pois é preciso que todos se conscientizem da importância de lutarmos pela fraternidade, harmonia entre os seres humanos e a ideia da unicidade biológica da espécie humana.

 

No mundo moderno, o racismo é uma forma de escravizar o ser humano, admitindo conceitos que impedem a realização da dignidade humana. Nesse sentido a data é uma forma da humanidade pensar no preconceito racial que impera no mercado de trabalho e nos lares de nossas casas através da televisão, sobretudo no cotidiano dos brasileiros que não assumem geralmente o seu racismo. Ainda há muitos brasileiros que preferem acreditar que a sociedade não tem racismo, dizendo que nós somos uma sociedade marcada pela igualdade das raças. Será que somos realmente o que Gilberto Freire escreveu no livro Casa Grande e Senzala?

 

No Brasil, o Movimento Negro vem lutando para afirmar a nossa cidadania desde os tempos dos navios negreiros. O desejo é um só: que brancos e negros vivam com dignidade e igualdade, apesar de os governantes conservadores dizerem por aí que todos somos iguais perante a lei, coisa que há muito tempo o movimento negro já desmentiu. A verdade é que o Brasil nunca foi cordial ou tratou algum dia com igualdade os seus habitantes de pele negra, tendo em vista que o nosso país é campeão mundial de violação dos direitos humanos da nossa comunidade negra. No Brasil, por exemplo, de cada 4 pessoas que a polícia mata, 3 são negras. Só na Paraíba para cada jovem branco que é assassinado de forma violenta, morrem 20 jovens negros, como foi divulgado em relatório pelo Ministério da Justiça.

 

Diante desse quadro, o racismo é o principal vetor responsável pelas péssimas condições humanas de nossa população afro-brasileira. Portanto, na minha concepção, a suposta democracia racial é um mito criado para esconder esta brutal desigualdade racial, mito este que muitos políticos e empresários adoram divulgar para o conjunto de nossa população, uma vez que ele funciona como uma forma de anular as nossas críticas a esse injusto, desumano e racista sistema capitalista que historicamente vem atuando no sentido de impedir o povo brasileiro de enxergar suas profundas raízes africanas (o Brasil não é a Malhação da Globo!).

 

Vamos acabar com todas as formas de discriminação contra os índios, judeus, ciganos, etc. É preciso a luta de todas as etnias para que possamos enfrentar esse monstro chamado racismo. A inspiração para pôr fim às desigualdades étnicas vem do Quilombo de Palmares, onde os palmarinos nos ensinaram a viver num país democrático e com justiça social para todos. Pena que a revista Pais&Filhos ainda não aprendeu a lição, pois já faz um ano que não traz uma criança negra na capa, segundo o Correio Nagô, da cidade de Salvador, e isto só demonstra o quanto estamos longe de vivermos uma verdadeira democracia racial.”

 

Por Jair Silva, historiador, coordenador do Movimento Negro de Campina Grande e aluno do curso de especialização em História e Cultura Afro-Brasileira da UEPB.

“Seminário de Reparação Histórica”

Negro, afro-brasileiro, afrodescendente ou indígena têm direito

No sábado, dia 2 de abril, o Movimento de Reparação para Negros e Negras (Morenno) realiza seminário de preparação para negociação com o Estado brasileiro sobre os territórios históricos como preservação da memória e reparação dos danos causados – “pela escravidão e a limpeza étnica promovida pela República” –, nestes 350 anos, ao povo negro e indígena.

 

No seminário serão apresentadas as formas de negociação com o Estado (nas esferas federal e internacional) para a preservação da área geográfica de herança africana, começando pela região portuária do Rio de Janeiro. O evento será realizado no Centro de Ação da Cidadania (Rua Barão de Teffé nº 75), no Cais do Valongo, às 10h.

 

Carta de Minas

O Seminário Internacional sobre Reparações, realizado nos dias 6 e 7 de novembro de 2015, em Belo Horizonte, reafirmou, na Carta de Minas Gerais, “a luta dos movimentos negros pela reparação, como o ressarcimento da dívida histórica pelos crimes cometidos contra os antepassados escravizados, que se refletem nas péssimas condições de vida em que há séculos é imposta à maioria da população negra, como crimes continuados”.

 

De acordo com a Organização para a Libertação do Povo Negro (OLPN), “a igualdade para o exercício de direitos e o acesso a oportunidades implica reconhecimento pelo Estado brasileiro da dívida histórica existente e de que parcela substancial da riqueza acumulada do Brasil a partir das receitas auferidas com o tráfico negreiro, a comercialização dos africanos e a exploração do trabalho do escravizado negro”.

 

Base jurídica

A Reparação Histórica se apoia juridicamente nos Direitos Humanos e no Direito Internacional, atualmente contemplado no ordenamento jurídico penal brasileiro. No entendimento de juristas e dos movimentos sociais, após a independência em 7 de setembro de 1822, o Estado brasileiro tornou-se responsável por todos os crimes praticados em seu território e no Continente Africano contra os escravos e hoje a “diáspora” africana. A relação de crimes hediondos e sem prescrição inclui sequestros, homicídios, torturas cruéis, estupros coletivos e a própria escravidão.