Vinte e oito de junho é a data que marca mundialmente o Dia do Orgulho LGBTTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex), e foi escolhida para lembrar a reação às constantes perseguições da polícia aos homossexuais que frequentavam um bar em Nova Iorque. Em 1969, uma batida policial desencadeou um levante que resultou na organização da 1ª Parada do Orgulho LGBT, realizada em 1º de julho de 1970. Desde então, a manifestação ocorre em quase todos os países para lembrar o episódio. No Brasil, ela acontece todos os anos em várias cidades.

O Dia do Orgulho LGBT, muito colorido e alegre, serve também para chamar a atenção para a realidade de perseguição, discriminação e violência contra as pessoas por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero. O mote deste ano é “contra a violência e pela criminalização da homofobia”. Relatório produzido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga entidade LGBT do Brasil, informa que a cada 27 horas acontece um crime de ódio no país. O GGB alerta que 2016 começou mais homofóbico, pois em apenas 28 dias a entidade registrou 30 assassinatos.

 

Fim dos espaços institucionais

“A violência cresceu. Se em Stonewall (boate gay na Flórida) foram mortos 50, no Brasil já foram 168 mortes registradas desde o início do ano. Dados retirados apenas da internet ou dos jornais, e que podem ser muito maiores, pois não são notificados. Temos ainda um complicador, que foi a extinção das Secretarias de Direitos Humanos, Igualdade Racial e de Mulheres, que foram incorporadas ao Ministério da Justiça. As minorias ficaram sem espaço. Nossas questões, que estavam sendo tratadas no Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Direitos LGBT, estão paralisadas. Está tudo parado no governo golpista”, declara o coordenador estadual da Articulação Brasileira de Gays (Artgay) e ex-coordenador de Políticas Sociais e de Gênero da Fasubra, Diego Gonçalves Rodrigues.

Mesmo com a conjuntura adversa, o grupo segue na luta. “Lutamos contra esta violência. E, mesmo neste governo golpista, queremos a aprovação de uma lei nossa, que criminalize o ódio. Ela se traduz no Projeto de Lei 7.582/2014, da deputada Maria do Rosário (PT-RS), que visa tornar crime os atos de intolerância contra LGBT e outros grupos vulneráveis”, completa Diego Rodrigues.

Covardia abominável

 

Antecedendo à celebração do orgulho LGBT, mais um crime de homofobia foi registrado na Bahia neste mês. No dia 10 de junho, os professores da rede estadual de ensino Edivaldo Silva e Jeovan Bandeira foram encontrados mortos na rodovia BA-120, distante 260 quilômetros da cidade de Santa Luz, onde os dois amigos moravam. Seus corpos foram carbonizados.

 

Ambos eram muito queridos na cidade em que moravam, e trabalhavam como professores de escolas da região. O crime, que está sendo apontado pela polícia e por familiares como ódio “homofóbico”, está sendo investigado. Os professores fazem parte da triste estatística de violência contra o grupo LGBT (facadas, torturas, espancamentos, esquartejamentos) levantada pelo Grupo Gay da Bahia.

 

Homofobia cresce no Brasil e no mundo

 

A homofobia (medo/ódio/discriminação de uma pessoa contra homossexuais) tem marcado a história da população LGBT pelo mundo. Nos EUA, em Orlando, na Flórida, na madrugada de 11 de junho, foram mortas mais de 50 pessoas em uma boate gay, a Stonewall mencionada por Diego Rodrigues. No Brasil, segundo relatório do Grupo Gay da Bahia, 318 LGBTs foram assassinados no Brasil em 2015. O levantamento foi feito em 187 cidades.

 

As agências internacionais dão conta de que mais da metade dos homicídios contra transexuais no mundo ocorre no Brasil. A violência anti-LGBT atinge todas as cores, idades, classes sociais e profissões no país. Mas esse tipo de violência abrange maior proporção, pois os números são subnotificados.

 

Segundo o coordenador do banco de dados do relatório do GGB, o analista de sistemas Eduardo Michels, “a subnotificação dos casos é notória, indicando que tais números representam apenas a ponta de um iceberg de violência e sangue. Infelizmente são raríssimas as informações enviadas pelas mais de trezentas Ongs LGBT brasileiras”.

 

O antropólogo Luiz Mott, fundador do GGB, informa que lastimavelmente a violência anti-homossexual cresce incontrolavelmente no Brasil. “Nos oito anos do governo FHC, foram documentados 1.023 crimes homofóbicos, média de 127 por ano; no governo Lula, subiram para 1.306, com média de 163 assassinatos por ano; nos 5 anos do governo Dilma, tais crimes atingiram a cifra de 1.561, com média de 312 assassinados anuais – mais que o dobro da média dos governos anteriores”, afirma.

 

O presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, sentencia: “Ser gay, lésbica, travesti ou transexual é um agravante de periculosidade dentro da intolerância machista dominante em nosso país”.

 

Fasubra quer organizar 2º seminário LGBT

 

 A luta contra o preconceito de raça e gênero integra as políticas da Fasubra. Segundo o coordenador de Políticas Sociais e de Gênero da Federação e coordenador-geral do Sintufrj, Francisco de Assis, desde o XXI Confasubra, realizado em 2012, que a questão LGBT está inserida no plano de lutas da entidade devido à necessidade de se realizar campanhas esclarecedoras para descontruir o preconceito arraigado na sociedade e nos diversos setores das universidades.

 

“Queremos e precisamos discutir formas de combater o preconceito e a discriminação contra este segmento na nossa universidade. Convocamos uma reunião para conversar com a categoria, mas não houve interesse. A realidade da violência existente no Brasil contra o grupo LGBT é brutal, e não podemos ficar parados assistindo a tudo de braços cruzados. Temos companheiros trabalhadores que fazem parte desta população e sofrem assédio em seus locais de trabalho. Temos política, temos campanha, queremos levantar a problemática na nossa UFRJ e propor formas de combate, a exemplo do assédio moral”, explica Francisco.

 

Em junho de 2013 a Fasubra lançou a campanha “LGBT é de Luta! Unidade na Diversidade”, com cartazes e um folder com explicações básicas sobre a sigla LGBT, o grupo, a homofobia, e como envolver a comunidade universitária neste debate. Em novembro de 2014 foi realizado o 1º Seminário LGBT da Fasubra. Agora, a Federação quer chamar a categoria para organizar e participar do 2º Seminário.