A
Velha Universidade Nova
Ana Maria
Ribeiro*
No final
do ano de 2006, por iniciativa
do reitor da Universidade
Federal da Bahia (UFBA),
e com a participação de
vários outros reitores
de universidades federais
brasileiras, e do Ministério
da Educação, foi realizado
o I Seminário Nacional
da Universidade Nova (reestruturação
da arquitetura acadêmica
da educação superior no
Brasil). Este seminário,
realizado na UFBA, nos
dias 1 e 2 de dezembro,
produziu o Manifesto da
Universidade Nova que
tem sido objeto de vários
debates, matérias na imprensa
e que deverá ser um referencial
no debate sobre os rumos
do ensino superior público
brasileiro no ano de 2007.
Assim como, o Projeto
de Lei que tramita no
Congresso Nacional sobre
a reforma do ensino superior.
Com o objetivo
de contribuir para o debate
apresentamos a seguir
alguns elementos e análise
do referido documento
que circula no ambiente
acadêmico que nos levam
a ter um posicionamento
crítico e discordante
da proposta apresentada.
Em que
pese termos concordância
com vários dos considerandos
apresentados no Manifesto,
as conclusões se apresentam,
a nosso ver, no sentido
contrário em que deveria
ser elaborado um projeto
de reestruturação da “arquitetura
acadêmica” da educação
superior no Brasil, como
sugerem os reitores.
Na leitura
do Manifesto é possível
destacar alguns dos eixos
utilizados pelos construtores
da proposta que nos parecem
de fundamental importância
e que, como tal, necessitam
de uma reflexão coletiva.
São eles: a) o sistema
de títulos; b) a excessiva
precocidade na escolha
da carreira; c) o sistema
de ingresso na educação
superior ser socialmente
excludente; d) os currículos
de graduação estreitos
e rígidos; e) a ausência
de conteúdos culturais,
científicos e humanísticos
na formação superior;
f) a possível incompatibilidade
de nosso sistema com relação
aos países desenvolvidos.
Antes de
abordar cada um dos eixos
identificados, gostaríamos
de resgatar uma concepção
importante para aqueles
que militam em defesa
da educação pública, gratuita,
democrática e socialista:
a politecnia e a escola
única. Resgatar, ou talvez
para alguns, apresentá-las,
para que se possa através
desta concepção compreender
o porquê do título deste
artigo.
A seguir,
reproduzimos extratos
dos livros de Demerval
Saviani(1)
e Acácia Kuenzer(2)
que esboçam o pensamento
sobre o papel da educação
na sociedade capitalista
e a necessidade do fim
da estrutura dualista
de ensino brasileiro.
O trabalho
como eixo central
(1)
A noção
básica de politecnia deriva
basicamente da problemática
do trabalho. Portanto,
nossa discussão passa
pela noção de trabalho,
o conceito e o fato do
trabalho como princípio
educativo geral.
Toda a
educação organizada se
dá a partir do conceito
e da existência do trabalho
- do entendimento e da
realidade do trabalho.
O que define a existência
humana, o que caracteriza
a realidade humana, é
exatamente o trabalho.
Trabalhar não é outra
coisa senão agir sobre
a natureza e transforma-la,
é isto que nos diferencia
dos animais, que se adaptam
a natureza para sobreviver.
Analisar
os diferentes modos de
produção, ou seja, como
o homem produz a sua existência,
ao longo da História da
humanidade, nos revela
a formação necessária
para garantir essa existência.
A escola originalmente
era algo restrito, a própria
origem da palavra escola
é ligada ao ócio, ao lazer.
A escola diz respeito
ao trabalho intelectual,
à cultura letrada, com
o objetivo de possibilitar
o domínio dos códigos
escritos que, principalmente,
a partir do positivismo
de Rousseau e das demais
teorias jurídicas, determinaram
as normas formais, estabelecidas
por convenções produzidas
pela sociedade moderna.
As funções intelectuais
eram restritas a pequena
parcela da sociedade,
e a escola também.
Na sociedade
capitalista a cidade prevalece
sobre o campo e há uma
necessidade de domínio
desses códigos escritos
e daí a proposta de universalização
da escola. As ciências
naturais e sociais se
desenvolvem e revelam
conhecimentos sistemáticos
obtidos por procedimentos
sistemáticos, elaborados
e referenciados por registros
escritos, nesse sentido
são chamados de científicos.
O oral é espontâneo, é
assistemático, não referenciado
em registros escritos.
O domínio da Ciência diz
respeito ao conjunto da
sociedade, ela se converte
em material incorporado
ao trabalho socialmente
produtivo, por isso a
importância do domínio
da linguagem escrita na
educação básica, assim
como a Matemática, as
Ciências Naturais e as
Ciências Sociais. Verificamos
que o principio que orienta
e fundamenta essa etapa
da formação é o trabalho,
mas que aparece de forma
implícita. Aprender a
ler, escrever e contar,
além dos conceitos das
Ciências Naturais e Sociais,
constituem pré-requisistos
para compreender o mundo
em que se vive, inclusive
entender a própria incorporação
pelo trabalho dos conhecimentos
científicos no âmbito
da vida e da sociedade.
Mas nesta etapa educacional
ainda não é necessário
estar fazendo referencia
direta ao processo de
trabalho, por se constituir
basicamente como um mecanismo,
um instrumento, através
do qual a sociedade se
apropria daqueles elementos
para sua inserção efetiva
na própria sociedade.
Na medida
em que o processo escolar
se desenvolve, coloca-se
a exigência de que estas
relações e, portanto,
os mecanismos que caracterizam
o processo de trabalho,
sejam explicitados. A
noção de politecnia se
encaminha na direção da
superação da dicotomia
entre trabalho manual
e trabalho intelectual,
entre instrução profissional
e instrução geral.
Na forma
da sociedade capitalista,
que generaliza as exigências
do conhecimento sistematizado,
o fato é marcado por uma
contradição: como se trata
de uma sociedade baseada
na propriedade privada
dos meios de produção,
a maximização dos recursos
produtivos do homem é
acionada, mas em benefício
daquela parcela que detém
a propriedade dos meios
de produção. Na sociedade
capitalista a Ciência
é incorporada ao trabalho
produtivo, convertendo-o
em potencia material.
O conhecimento se converte
em força produtiva e,
portanto, em meio de produção.
Mas a contradição do capitalismo
atravessa também a questão
relativa ao conhecimento:
se essa sociedade é baseada
na propriedade privada
dos meios de produção,
uma força produtiva, ela
deveria ser propriedade
privada da classe dominante.
No entanto, os trabalhadores
não podem ser expropriados
de forma absoluta dos
conhecimentos, porque
sem conhecimento eles
também não podem produzir
e, por conseqüência, se
eles não trabalham, não
acrescentam valor ao capital.
Desse modo a sociedade
capitalista desenvolveu
mecanismos através dos
quais ela procura expropriar
o conhecimento dos trabalhadores
e sistematizar, elaborar
esses conhecimentos, e
os devolver na forma parcelada.
O “taylorismo” é a expressão
mais típica do que está
sendo apontado. A partir
do estudo do tempo e movimento,
chegou-se a forma de divisão
do trabalho por especialidade
de forma a que este receba
o conhecimento parcelado
e o de conjunto passa
a ser propriedade da pequena
parcela com acesso ao
nível superior. O trabalhador
domina algum tipo de conhecimento,
mas apenas aquele conhecimento
parcelado necessário a
sua participação no processo
produtivo. Nesse quadro
é que se delineia a concepção
de profissionalização,
do ensino profissionalizante.
Essa concepção capitalista
burguesa, tem como pressuposto
a fragmentação do trabalho
em especialidades autônomas.
Formam-se trabalhadores
para executar com eficiência
determinadas tarefas requeridas
pelo mercado de trabalho.
Nesta concepção, que se
baseia na divisão entre
trabalho manual e trabalho
intelectual, na divisão
entre proprietários e
não proprietários dos
meios de produção, o trabalhador
detém apenas a sua força
de trabalho. Tal concepção
também vai implicar na
divisão entre os que concebem
e controlam o processo
de trabalho, e aqueles
que executam o processo
de trabalho. O ensino
profissional é destinado
àqueles que devem executar,
enquanto que o ensino
científico-intelectual
é destinado àqueles que
devem conceber e controlar
o processo.
A idéia
de politecnia contrapõe-se
a esta concepção. Ela
defende que o processo
de trabalho desenvolva,
numa unidade indissolúvel,
os aspectos manuais e
intelectuais. Um pressuposto
dessa concepção é de que
não existe trabalho manual
puro, e nem trabalho intelectual
puro. Todo trabalho
humano envolve a concomitância
do exercício dos membros,
das mãos, e do exercício
mental, intelectual. Politecnia,
literalmente, significaria
múltiplas técnicas, multiplicidade
de técnicas; diz respeito
ao domínio dos fundamentos
científicos das diferentes
técnicas que caracterizam
o processo de trabalho
produtivo moderno; diz
respeito aos fundamentos
das diferentes modalidades
de trabalho; se baseia
em determinados princípios,
determinados fundamentos
e a formação politécnica
deve garantir o domínio
desses princípios. Com
isto o trabalhador está
em condições de desenvolver
as diferentes modalidades
de trabalho, com a compreensão
de seu caráter, da sua
essência. Ele terá um
desenvolvimento multilateral,
um desenvolvimento que
abarca todos os ângulos
da pratica produtiva moderna
na medida em que ele domina
aqueles princípios, aqueles
fundamentos, que estão
na base da organização
da produção moderna.
A relação
entre educação e trabalho
na prática: o caso brasileiro
(2)
A divisão
social e técnica do trabalho
é condição indispensável
para a constituição do
modo capitalista de produção.
Na medida em que, rompendo
a unidade entre teoria
e prática, prepara diferentemente
os homens e mulheres para
que atuem em posições
hierárquica e tecnicamente
diferenciadas no sistema
produtivo. A decorrência
natural deste princípio
é a constituição de sistemas
de educação marcados pela
dualidade estrutural.
Desde o momento que nasce
a educação diretamente
articulada ao trabalho
se estrutura como um sistema
diferenciado e paralelo
ao sistema de ensino regular
marcado por finalidade
bem específica: a preparação
dos pobres, marginalizados
e desvalidos da sorte
para atuarem no sistema
produtivo nas funções
técnicas localizadas nos
níveis baixo e médio da
hierarquia ocupacional.
Sem condições de acesso
ao sistema regular de
ensino, esses futuros
trabalhadores seriam clientela,
por excelência, de cursos
de qualificação profissional
de duração e intensidade
variáveis, que vão desde
os cursos de aprendizagem
aos cursos técnicos.
A dualidade
estrutural no sistema
de ensino brasileiro,
e no mundo globalizado
capitalista, expressa
a divisão que está posta
na sociedade brasileira,
enquanto perpetua a separação
entre trabalhadores manuais
e trabalhadores intelectuais
e exige que lhes dê distintas
formas e quantidades de
educação. A permanência
dessa dualidade nos revela
também a ingenuidade de
propostas que pretendem
resolver, através da escola,
problemas que são estruturais
nas sociedades capitalistas.
Neste sentido, a escola
brasileira, antes de resolver
a dicotomia educação/trabalho
no seu interior, referenda,
através do seu caráter
seletivo e excludente,
essa separação que é uma
das condições de sobrevivência
das sociedades capitalistas,
uma vez que determinada
pela contradição fundamental
ente capital e trabalho.
Não se fala na presença
do mundo do trabalho na
formação e sim, da formação
voltada para o mercado
de trabalho.
Os dados
estatísticos(3)
confirmam estas afirmativas.
No Brasil apesar de 99%
das crianças estarem matriculadas,
em 2005, na 1ª séria do
Ensino Fundamental, verificamos
que apenas 70% a concluem.
Verificamos que com 10
anos, apenas 66% dos alunos
está sem atraso escolar;
aos 14 anos esse número
cai para 45% e aos 17
anos apenas 26% dos jovens
está sem atraso escolar.
Enquanto apenas 1% das
crianças com 7 anos está
fora da escola, aos 17
anos são 32% dos jovens
fora da escola. Não por
coincidência os excluídos,
do que se considera a
educação básica para a
formação do cidadão, pertencem
às camadas da população
de baixa renda.
Os dois
grupos que se constituem
a partir da seleção da
escola – os que permanecem
no seu interior e que
são excluídos – apropriam-se
diferentemente do saber
sobre o trabalho.
Os que
permanecem na escola vão
se apropriar do saber
sobre o trabalho no seu
interior, recebendo uma
certificação que lhes
permitirá ocupar, na hierarquia
do trabalhador coletivo,
o exercício das funções
intelectuais: são os técnicos
de nível médio e os profissionais
de nível superior. A estes
profissionais a escola
faculta o acesso ao “saber
teórico”, constituído
pelos princípios teóricos
e metodológicos que a
sociedade produziu historicamente
através do trabalho coletivo
e que sistematizou através
de seus intelectuais.
A escola, reconhecida
como lócus de reprodução
do saber teórico, não
lhes dá, contudo, acesso
a outras formas de articulação
com o trabalho concreto
e tampouco com a prática
social em que se insere.
Pelo contrário, o trabalho
escolar nos diversos níveis,
no caso brasileiro, apoiado
na fragmentação e autonomização
da ciência e nos métodos
empíricos, têm reproduzido
uma teoria reificada derivada
de uma concepção ideológica
da ciência tida como neutra
e universal o que tem
impedido a necessária
captação das dimensões
da totalidade, de movimento,
de historicidade do real.
Em decorrência,
pode-se afirmar que os
profissionais, que aprendem
o saber sobre o trabalho
na escola, aprendem “teoria
sem prática”.
Essa limitação
só poderá ser vencida
após o ingresso no mercado
de trabalho, e mesmo assim,
dependerá da qualidade
de fundamentação teórica
que a escola ofereceu.
Se o profissional teve
acesso a um quadro teórico
atual, adequado e articulado
com a realidade do trabalho
concreto, com outro período
de prática ele se constitui
efetivamente em profissional
competente. Caso isto
não ocorra, o lugar que
ele ocupará na hierarquia
do trabalhador coletivo
dependerá antes de seu
poder de negociação em
função da oferta e demanda
de força de trabalho,
da conjuntura econômica
e das suas relações políticas
do que do seu grau de
domínio do saber sobre
o trabalho. Embora estas
variáveis também estejam
presentes para o profissional
tecnicamente competente,
o domínio do conteúdo
do trabalho amplia-lhe
o espaço de negociação.
De qualquer
modo, esta é uma limitação
para o trabalhador e não
para o capital, que resolve
a questão da qualificação
independentemente da escola,
formando seus próprios
contingentes em treinamentos
determinados pelas necessidades
específicas de cada processo
produtivo, realizados
nas próprias empresas
ou em agências específicas
de formação profissional
nos diversos níveis, inclusive
de pós-graduação.
Por outro
lado, considerando-se
que o saber científico
e tecnológico “de ponta”
não é produzido na escola,
mas no interior das relações
de produção, reconhece-se
que historicamente esse
saber tem sido desenvolvido
e apropriado pelo capital,
mesmo que para isto ele
se utilize das instituições
públicas de ensino e pesquisa.
Cabe à escola, portanto,
a distribuição do saber
produzido socialmente,
e segundo as necessidades
do capital, o que permite
entender que a sua não
democratização expressa
pelo seu caráter seletivo
e excludente não é uma
disfunção, mas sua própria
forma de articulação com
o capital.
Não obstante
reconheça-se os limites
da formação profissional
na escola, em termos de
seu caráter de distribuição
desigual do saber e da
qualidade do saber reproduzido,
é inegável o valor
do ”certificado escolar”,
à medida em que abre as
portas para o exercício
das funções intelectuais
no mercado de trabalho
e confere as habilidades,
comportamentos e conhecimentos
minimamente necessários
para a aquisição de competência
através do exercício profissional.
A única
alternativa de apropriação
do saber sobre o trabalho,
de forma sistematizada
e em sua dimensão de totalidade,
é a escola, apesar de
seus limites.
A efetiva
democratização do saber
esbarra em uma dificuldade
de outra ordem: a falta
de clareza teórica sobre
como e aonde se dá a educação
para o trabalho, e qual
o papel que cabe à escola,
a partir da ótica dos
trabalhadores. E os trabalhadores
reivindicam se apropriar
da teoria que está por
trás da prática. Embora,
para o capital, esta ruptura
também seja danosa no
processo de formação dos
seus intelectuais, recebem
“teoria sem prática”,
este problema tem sido
facilmente resolvido,
uma vez que aquele que
tem posse do saber teórico
com algum tempo de prática
faz a reunificação. Já
a recíproca não é verdadeira.
A escola
única de ensino politécnico,
ao tomar o trabalho como
principio educativo, implica
necessariamente a articulação
ente teoria e prática,
sob pena de negar sua
proposta. Esta articulação
ocorre em distintos níveis:
ao nível da estrutura,
através da negação da
separação entre cursos
teóricos e cursos práticos,
ou seja, entre cursos
que formem trabalhadores
intelectuais e cursos
que formem trabalhadores
instrumentais; ao nível
do conteúdo, negando,
através da politecnia,
a divisão entre disciplinas
gerais e específicas;
ao nível da metodologia,
articulando a teoria às
atividades produtivas,
propiciando ao aluno o
domínio do processo de
construção do conhecimento.
A Reforma
do Ensino Superior à luz
desta concepção
(4)
Há várias
questões a serem enfrentadas
para o desenvolvimento
desta concepção de educação
à luz de uma reforma no
ensino superior. Uma delas
é a necessidade de se
rever a articulação do
Ensino Médio concebido
desta forma na Lei de
Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, com
o Ensino Fundamental e
o Ensino Superior. Na
mesma perspectiva da escola
única, em que, no grau
elementar seriam ministrados
os elementos básicos necessários
à apropriação da cultura
e no grau superior ocorreria
a especialização, não
mais como conforme o princípio
educativo humanista clássico,
mas segundo o trabalho
tomado como principio
educativo tendo em vista
a formação do dirigente
concebido enquanto síntese
do técnico e do político.
Nesta concepção a questão
do ingresso no ensino
superior, hoje feita com
base no núcleo comum,
precisaria ser repensada,
pois a politecnia encaminharia
para profissões que mantivessem
afinidade com o ensino
médio cursado.
A estrutura
hoje organizada aponta
para a exclusão porque
está pautada na formação
de uma pequena parcela
para as funções intelectuais.
A reforma no ensino superior
passa necessariamente
por uma reforma no ensino
médio e na articulação
destes níveis de ensino
e a inserção do mundo
do trabalho no processo
educativo e não a visão
capitalista de “escola/universidade
voltada para o mercado
de trabalho”, mas sim
voltada para uma função
social.
Portanto,
percebemos o equívoco
apresentado pela proposta
“Universidade Nova” que
ao trazer os ideais dos
liberais da década de
60, que na realidade brasileira
é quase “revolucionária”,
cai no que salienta Kuenzer,
de “ingenuidade de propostas
que pretendem resolver,
através da escola, problemas
que são estruturais nas
sociedades capitalistas”,
sem, contudo enfrenta-los.
Primeiro, porque se baseia
no fortalecimento da dualidade
do sistema educativo,
em adiar, ainda mais,
o contato do jovem com
o mundo do trabalho, “(...)
uma concepção acadêmica
pautada em modelos de
estudos de graduação de
maior abrangência, não
comprometidos com a profissionalização
precoce e fechada (...)”
(proposta 1 do Manifesto).
Segundo, porque está completamente
distante dos anseios dos
jovens de 15 a 24 anos
que desejam respostas
rápidas, desejam a democratização
do conhecimento, o que
é muito diferente da popularização
do mesmo.
Vejamos
cada um dos eixos apresentados:
a)
O sistema de títulos
A sociedade
capitalista, construída
ao longo dos últimos séculos,
criou uma série de mecanismos
de sustentação, assim
como, os trabalhadores
construíram outros para
sua defesa. É comum assistirmos
a um debate na academia
de ataque à algumas instituições
e às suas interferências
na construção do saber.
Os principais ataques
se concentram aos Conselhos
de Classe e aos Sindicatos.
Em que pese a construção
e a história destas instituições/entidades,
em muitos casos elas são,
hoje, claramente instrumentos
de defesa do que a estrutura
da sociedade capitalista
impõem à sociedade. Os
Conselhos de Classe são
instrumentos de fiscalização
do exercício profissional,
não permitindo que qualquer
indivíduo exerça determinadas
funções que causem danos
à sociedade, sem estar
autorizado para tal, e
os sindicatos de defesa
do trabalhador com relação
às suas funções, condições
de trabalho e remuneração.
Na realidade,
a certificação que possibilita
o exercício de uma profissão,
concedida pelas instituições
de ensino, estas também
credenciadas pelo Estado
para tal, nada mais é
do que uma tentativa de
“controle social” (do
Estado) do vale tudo do
capitalismo e da necessidade
de controle de quem pode
ter acesso às técnicas
do trabalho intelectual.
Durante muito tempo, e
em alguns casos, como
instrumento de controle
da oferta profissional
no mercado de trabalho,
sobre-valorizando aquele
profissional específico
- reserva. Na visão da
academia, a certificação
de uma instituição de
ensino superior já seria
o suficiente para qualificá-lo
ao exercício profissional,
e o mercado profissional
faria a seleção. Outros
defendem que a universidade
não deve certificar nenhum
curso (o fim dos diplomas),
a formação universitária
seria geral e teórica,
humanista, possibilitando
ao cidadão o acesso ao
processo produtivo. Ambas,
esbarram na falta de análise
da sociedade capitalista
e o fato do conhecimento
se converter em força
produtiva e, portanto,
em meio de produção. Assim
ele se converte em valor.
Portanto, dentro da sociedade
capitalista não podemos
tratar o conhecimento
sem que haja os instrumentos
de defesa da sociedade
e dos trabalhadores. Ou
seja, o sistema de títulos
não se derruba, sem a
derrubada do sistema econômico
vigente.
b)
a excessiva precocidade
na escolha da carreira;
Com relação
a este eixo, defendemos
exatamente ao contrário.
A própria afirmativa mostra
a preocupação com o mercado
de trabalho e o fortalecimento
da idéia de que a escolha
de um curso superior já
é a escolha de uma carreira
profissional, quando o
jovem se quer conhece
a estrutura da organização
do trabalho, pois vem
de uma formação de nível
médio teórica, geral e
completamente distanciada
da realidade social e
econômica em que está
inserido. Este é hoje
um dos principais problemas.
A taylorização da economia
capitalista, e a conseqüente
especialização da educação,
trouxe ao ensino superior
uma enorme quantidade
de diferentes cursos de
graduação – são cerca
de 470 cursos no Brasil
(censo 2005). Pelo distanciamento
dos jovens do mundo do
trabalho, estes sequer
conhecem a diversidade
de ações no trabalho para
a sociedade e continuam
voltados aos tradicionais
cursos que lhes possam
promover socialmente,
como um objeto de consumo
e não como um investimento.
Os dados são evidentes:
Brasil*
Nº. de
Cursos de Graduação Presencial
|
Total |
20.407 |
|
|
Capital |
7.028 |
|
|
Interior |
13.379 |
|
|
Publico |
6.191 |
2.449
– federais |
|
Privado |
14.216 |
6.044
– com/conf |
|
Região Sudeste |
9.549
(46,8%) |
8.114
privado |
|
|
(RJ
- 1.342
SP
– 4.476) |
|
Nº. de
Vagas no Ensino Superior
|
Vagas
Oferecidas |
Candidatos Inscritos |
Ingressos |
Vagas
não ocupadas |
|
2.435.987 |
5.060.956 |
1.397.281 |
1.038.706 |
|
Cursos |
Vagas
Oferecidas |
Candidatos Inscritos |
Ingressos |
|
Administração |
371.502 |
566.349 |
211.392 |
|
Direito |
212.739 |
554.169 |
144.845 |
|
Professores para
o Ensino Médio |
208.824 |
396.543 |
124.710 |
|
Pedagogia |
153.962 |
219.708 |
81.234 |
|
Comunicação Social
(redação) |
103.228 |
188.512 |
53.205 |
|
Contabilidade |
89.984 |
136.174 |
51.970 |
|
Enfermagem |
80.447 |
205.481 |
56.219 |
|
Fisioterapia |
61.721 |
108.134 |
30.822 |
|
Psicologia |
47.895 |
94.832 |
24.806 |
|
Medicina |
14.501 |
313.429 |
14.205 |
|
Total
dos 10 cursos acima |
1.344.803 |
2.783.331 |
793.408 |
|
percentual |
55,2% |
55% |
56,78% |
*Dados do Censo da Educação
Superior 2005/INEP
Como podemos
constatar 55% dos jovens
que se inscrevem à uma
vaga numa instituição
de ensino superior estão
concentrados em apenas
10 cursos superiores dos
600 existentes. A totalidade
de vagas oferecidas no
sistema de ensino superior
não é ocupada. Estes números
mudam quando separamos
por origem administrativa
em que verificamos a total
ocupação nas instituições
públicas e a evasão de
cerca de 50% nas privadas.
A questão
a se debater é como conhecer
a imensa quantidade de
alternativas de profissões
se o mundo do trabalho
não faz parte do processo
educativo? Onde apenas
as profissões tradicionais
ou as que “iludem” com
status social e econômico
dominam o universo imaginário
de nossa juventude? A
nosso ver, não existe
precocidade na escolha
de profissões, há sim
uma campanha massificada,
que subestima e categoriza
algumas profissões em
detrimento de outras,
elevando ao patamar de
profissões que, na hierarquia
do trabalhador coletivo,
detém o poder no processo
produtivo. Sabemos que
na pratica isso hoje é
muito relativo e é extremamente
alto o nível de proletarização
das profissões consideradas
como intelectuais, como
trabalhador autônomo.
Médicos, advogados, engenheiros
necessitam vender sua
força de trabalho e nem
todos ocupam a na hierarquia,
espaços de poder. A novidade,
inclusive, são as especializações
dentro das próprias profissões
que determinam uma relação
de poder de uma sobre
outras. Um exemplo, podemos
em breve ter escassez
de médicos na especialidade
de anatomia e um excesso
de cirurgiões plásticos.
A lógica que impera é
a do mercado e não das
necessidades sociais,
e é ela que determina
a concentração de candidatos
em determinadas profissões.
A universidade pública
deve romper com essa lógica.
c) o sistema
de ingresso na educação
superior ser socialmente
excludente;
Nos últimos
anos um determinado discurso
passou a ser a tônica
na discussão de ingresso
no ensino superior brasileiro:
a de que o vestibular
é um instrumento excludente
e a necessidade de se
democratizar o acesso.
Na realidade a exclusão
não está no processo de
acesso ao ensino superior
e os números são evidentes,
uma vez que a totalidade
de vagas existentes no
ensino superior brasileiro
não é ocupada. O principal
debate é o acesso às instituições
públicas de ensino superior
e nestas, nos cursos de
maior procura e mesmo
assim, apenas para uma
pequena parcela da sociedade,
cerca de 30% dos jovens
entre 15 a 24 anos que
concluem o Ensino Médio.
O sistema
adotado, pelo conjunto
das instituições públicas
de ensino superior, para
o acesso aos seus cursos,
não tem absolutamente
nada de antidemocrático.
Todos adotam provas em
que exigem os conteúdos
curriculares a nível de
ensino médio, em provas
aplicadas no mesmo dia,
mesma hora e sem condições
de identificação socioeconômica
do candidato, tendo como
único critério a avaliação
acadêmica. Evidentemente
que o processo de exclusão
está presente nos candidatos
pela formação desigual
que sua origem socioeconômica
lhe possibilitou, pela
forma parcelada em que
o conhecimento lhe foi
conferido. Não é o concurso
de acesso que o exclui,
é o processo de aquisição
de conhecimento ao longo
de sua vida que é excludente
e é nele que temos agir
profundamente.
A proposta
de bacharelado interdisciplinar
(BI), de três anos, não
indica como será o processo
de seleção que depois
permitirá que uns consigam
a vaga de Medicina, por
exemplo, e outros não.
Mas tudo indica que as
notas do BI é que, sejam
o parâmetro, fazendo a
sua seleção e aí sim,
podendo certamente ser
extremamente antidemocrática,
pois não será mais impessoal
e sim, com desigualdade
de acesso ao conhecimento,
fruto de turmas diferentes,
professores com avaliações
diferentes, permitindo
conceitos finais desequilibrados.
d) os currículos
de graduação estreitos
e rígidos;
Este é
outro eixo que contradiz
todo o movimento ocorrido
na última década, onde
profissionais, estudantes
e docentes se debruçaram
na construção das Diretrizes
Curriculares Nacionais.
Na maioria dos cursos
de graduação a conclusão
foi da necessidade de
se inserir as disciplinas
consideradas profissionais
desde o primeiro período
e dando consistência de
formação teoria e prática,
construindo assim o perfil
do profissional. As atividades
complementares, a extensão
como processo formativo
e de interação com a sociedade
em que estão inseridos,
os projetos pedagógicos
de curso e uma enorme
gama de mudanças estão
sendo implementadas nos
cursos de graduação pelo
país a fora. Com certeza
num ritmo lento, próprio
do processo educacional,
em que é necessário quase
uma década para ver os
efeitos de determinadas
mudanças.
Um dos
grandes problemas reside
na estrutura departamental,
criada na Reforma de 68,
em que as disciplinas
são propriedade de departamento
e por sua vez de alguns
docentes, ainda mantendo
a velha relaçãelha
relaçade de departamento
e por sua vez de alguns
docentes, ainda mantendo
uma cupam a relaço
de cátedra. A estrutura
administrativa acadêmica
arcaica e com centralização
de poderes na esfera da
pós-graduação categoriza
as disciplinas de formação
básica e geral como de
“segunda classe”. A busca
pelos altos níveis de
titulação do corpo docente
levou a uma excessiva
especialização em que
os concursos, majoritariamente
para o cargo de adjunto
(título de Doutor), chegam
a um nível de detalhe
que praticamente retoma
a propriedade da disciplina
ao docente selecionado.
Não se seleciona para
o ensino de um curso de
graduação, mas para engrossar
as fileiras da produção
do curso de Mestrado e
Doutorado, aumentando
ainda mais o fosso da
universidade pública para
com o mundo do trabalho.
A rigidez dos currículos,
a dificuldade existente
em muitos cursos para
aplicar as Diretrizes
Curriculares Nacionais
está intimamente ligada
com a resistência do corpo
docente em interagir com
a extensão, com a nova
metodologia de ensino
e principalmente, com
a interdisciplinaridade
proposta.
e)
a ausência de conteúdos
culturais, científicos
e humanísticos na formação
superior;
Com certeza
a uma enorme falta de
conteúdos culturais, científicos
e humanísticos na formação
superior porque ela retrata
a política de exclusividade
das áreas consideradas
nobres em detrimento das
artes/cultura/letras/musica.
As áreas de humanas e
sociais foram barbaramente
desmontadas em nossas
universidades, seja com
perda de quadros intelectuais,
seja pela penúria financeira
em que foram colocadas
por décadas. Os recursos
para pesquisa e pós-graduação
não estiveram voltados
à estas áreas e as poucas
instituições que conseguiram
algum espaço social, na
pratica se renderam a
atual fabrica de gerar
recursos: oferecendo cursos
pagos de especialização
e extensão. Este ostracismo
nestas áreas, nas universidades
públicas, se refletiu
nos conteúdos curriculares.
Mesmo após o processo
de redemocratização da
sociedade brasileira não
foi possível resgatar
o papel destes conteúdos
na formação. Mas será
que a filosofia e a sociologia,
as artes, a história das
ciências, deveriam ser
introduzidas no primeiro
período dos cursos superiores,
como disciplinas obrigatórias?
Como se pretende introduzir
estes conteúdos? De forma,
mais uma vez, desconectada
do mundo em que o jovem
está inserido? Sem fazer
a conexão com a profissão
em que deseja descobrir?
Na forma
em que é apresentada,
a proposta induz a mais
dois anos de formação
geral, para ser um bom
cidadão na sociedade capitalista
e poder adiar ainda mais
a sua inserção no mundo
à sua volta.
f) a possível
incompatibilidade de nosso
sistema com relação aos
países desenvolvidos.
Em primeiro
lugar, é necessário saber
com que países se desejam
garantir esta compatibilidade
no ensino superior e porque
nossos dirigentes não
estão preocupados em também
garantir a mesma compatibilidade
de um ensino fundamental
e médio completamente
público e estatal, como
o é nos principais países
do primeiro mundo. Mas
vamos apresentar os acordos
em vigor com o Brasil.
O MEC homologou
o Tratado da Amizade,
Cooperação e Consulta
entre o Brasil e Portugal
(Decreto nº. 3.927, de
19/09/2001), o modelo
de creditação e duração
dos cursos em processo
de implantação em Portugal
– harmonização ao sistema
europeu, que fixa em anos
a duração dos bacharelados
e das licenciaturas –
o ano letivo é de 32 semanas,
ocupadas por quantidade
de trabalho escolar que
varia de 25 e 32 horas
semanais, ou seja, 800
e 1.024 horas anuais.
Brasil e Portugal decidiram
reconhecer como cursos
de graduação, aqueles
com duração mínima de
3 anos.
A União
Européia recomenda que
os cursos de graduação
tenham no mínimo 3 anos
de duração, correspondente
a 180 créditos (conforme
ECTS – cada crédito =
26 horas, curso de 3 anos
= 4.680h = 1560h anuais)
e os cursos de 4 anos
de duração, correspondente
a 240 créditos (ou seja,
6.240h de trabalho escolar,
com as 1.560h anuais).
O acordo
do Mercosul, é que o acesso
a mestrados e doutorados
só se darão com a exigência
de cursos de graduação
com duração mínima de
quatro anos.
No Brasil
o ano letivo a partir
da LDB (Lei 9.394/96)
é de 200 dias de trabalho
acadêmico efetivo – 40
semanas, ocupadas por
quantidade de trabalho
escolar que varia de 22h
a 30h semanais, ou seja,
880 e 1.200 horas anuais.
Medicina, com seis anos
e maior quantidade de
trabalho escolar, 30h,
está com carga horária
mínima de 7.200h. Entretanto,
o Conselho Nacional de
Educação (CNE) tentou,
através do Parecer 329/2004,
aprovar que a maioria
dos demais cursos da saúde
teria uma carga horária
mínima de 3.200 h, bem
longe do padrão europeu.
É importante ressaltar
que este mesmo parecer
do CNE, substituído pelo
Parecer 184/2006, defende
a visão de que a graduação
seja mais acadêmica e
que a especialização/profissionalização
seja ofertada na pós-graduação.
Pelo que
podemos constatar os acordos
vigentes tratam de no
mínimo três anos de duração
da graduação e no Mercosul,
para ingresso na pós-graduação,
a exigência é de quatro
anos de formação.
Como se
insere o Bacharelado Interdisciplinar
de três anos e depois
mais três, quatro, cinco
ou seis anos de graduação
para se manter compatível
internacionalmente?
Conclusão
A “Universidade
Nova” se constitui na
introdução do BI em três
anos e só depois é que
o jovem “enfrentará o
mundo do trabalho, com
diploma de bacharel em
área geral de conhecimento
(Artes, Humanidades, Ciências,
Tecnologias)” e caso deseje,
poderá ter o prosseguimento
de estudos: docência/licenciaturas
mais 1 ou 2 anos; carreiras
específicas mais 2 a 5
anos e os excelentes poderão
ir direto para a pós-graduação
– mestrado profissionalizante
ou mestrado.
A grande
contradição desta proposta
é o seu distanciamento
com os anseios da juventude
brasileira e das condições
socioeconômicas das camadas
que conseguem não ser
excluídas da escola e
almejam o ingresso no
ensino superior. Assim
como, de uma análise mais
profunda da constituição
do Estado brasileiro,
do estágio das relações
de trabalho e do processo
produtivo da sociedade
capitalista. A introdução
das novas tecnologias,
a velocidade em mudam,
o rápido acesso à informação
exigem um maior quantitativo
de trabalhadores com acesso
a esse conhecimento, principalmente
no setor de serviços.
A proposta apresentada
reforça a divisão social
e técnica do trabalho
e fortalece a estrutura
dualista de ensino.
*Técnica em Assuntos Educacionais/UFRJ
(1)
Saviani, Dermeval. Sobre
a Concepção de Politecnia.
Rio de Janeiro: FIOCRUZ.
Politécnico da Saúde Joaquim
Venâncio, 1987 (trabalho
apresentado durante o
“Seminário Choque Teórico”,
realizado em dezembro
de 1987 na FIOCRUZ) –
grifos nossos;
(2)
Kuenzer, Acácia. Ensino
de 2º Grau – O trabalho
como principio educativo.
3ª edição. São Paulo:
Cortez, 1997 - grifos
nossos;
(3)
Dados do PNAD – Pesquisa
Nacional por Amostragem
Domiciliar 2005, publicada
em artigo de Ruben Klein
no Jornal O GLOBO, Universalização
do ensino básico, dia
21/01/2007;
(4)
Início da analise de Ana
Maria Ribeiro sobre o
manifesto “Universidade
Nova”. |