ETNIA -
Morte nos porões da barbárie
(Ana D'angelis)EXCLUSIVO Os segredos do
cemitério de escravos no caminho da Gamboa

MERCED.
A partir da descoberta, iniciou
uma verdadeira saga para recuperar a memória de
parte da história da
barbárie escrava no Brasil

O sonho de voltar para junto dos
seus antepassados, na África, não se concretizou nem mesmo depois da
morte para 6.119 negros trazidos à força no século XIX para serem
vendidos em leilões na Rua Direita, atual Primeiro de Março. A morte
nos porões dos navios negreiros ou à luz do dia, diante da multidão,
quando doentes e atordoados eram arrastados ao mercado de escravos
tão logo desembarcavam no Porto do Rio de Janeiro, apenas garantiu a
esses africanos morrer antes de serem escravizados no Brasil.
Pela tradição religiosa dos negros bantos, cultuada por esse
contingente de africanos, vindos de várias partes da África Central,
como Luanda, Moçambique, Bengala, Congo, o sepultamento em cova
funda era parte importante do ritual para o retorno ao seu
continente e o reencontro com os entes queridos. Mas o destino final
daqueles que não resistiam aos sofrimentos da viagem era uma área de
110 m2, situada no antigo caminho da Gamboa, conhecida como a Rua do
Cemitério, mais tarde Rua da Harmonia, hoje Rua Pedro Ernesto.
Ali, à flor da terra, os corpos nus eram jogados uns sobre os outros
e queimados uma vez por semana. Desde 1996, jazem em uma caixa de
papelão no Instituto de Arqueologia Brasileiro (IAB) fragmentos de
ossos que correspondem a 28 esqueletos completos de pretos novos, os
recém-chegados da África, cuja idade variava entre 3 e 25 anos, do
sexo masculino e feminino.

IMAGENS DE UM GENOCÍDIO.
Ossadas de negros encontradas em escavações na Gamboa, zona
portuária do Rio de Janeiro
Cemitério foi descoberto por
acaso
A confirmação da existência do
Cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, o único do qual se
tem notícia na América, só foi possível graças ao voluntarismo do
casal Ana Maria Merced e Petrúcio Guimarães, e às pesquisas de Júlio
César Medeiros da Silva Pereira, na época um estudante de História
da Uerj, atualmente mestre em História Social pela UFRJ.
Proprietários da casa nº 36 na Rua Pedro Ernesto – uma típica
construção do século XVIII, sem banheiro e rede de esgoto, que
abrigou famílias pobres e negros libertos, na zona portuária –,
Merced e Petrúcio iniciaram, em 1996, escavações para colocação de
estruturas de ferro que permitiria construir cômodos em cima. Mas
para espanto dos pedreiros, ossos misturados a fragmentos, tais como
miçangas de vidro, artefatos de ferro e pedaços de cerâmica,
começaram a saltar da terra. “A firma de engenharia que fez a
sondagem do solo constatou que de 20 cm a dois metros de
profundidade só tinha ossos”, contou Merced.
E a lenda que corria de que no bairro existiu um cemitério de
escravos se confirmou. O achado foi informado à Prefeitura e,
através de mapas antigos do município, duas arqueólogas constataram
que abaixo não só da casa dos Guimarães, como numa área de 110 m2,
centenas de africanos encontraram sua última morada. As pesquisas de
Júlio César, primeiro para a monografia e depois para a dissertação
de mestrado, complementaram a informação histórica: de 1779 a 1831,
6.119 corpos de “pretos novos” foram enterrados naquele local. “No
Museu da Cúria Metropolitana encontrei um livro de óbitos da
Freguesia de Santa Rita, que respondia à época pelo cemitério, onde
estão registrados os nomes dos navios, as nações ou os portos de
origem, os donos e as idades dos ‘escravos novos’ desse período, e
até as marcas que recebiam nos navios negreiros”, confirmou o
historiador, que se uniu a Merced e Petrúcio ao ler sobre a
descoberta do sítio arqueológico numa nota de rodapé de jornal.

SUPLÍCIO.
Cerca de 400 escravos
eram transportados nos navios negreiros, misturados a cargas de
todos os tipos.
Eram transportados nos porões deitados dois a dois,
mulheres, idosos e crianças
Escondendo a vergonha
Cemitérios para negros, pobres
indigentes

Os documentos pesquisados também
revelaram que no século XVII um pequeno cemitério junto ao Morro do
Castelo, nos fundos da Santa Casa da Misericórdia, destinava-se aos
escravos africanos, seus descendentes, indigentes e pobres que
morriam no hospital. Como em 1700 este cemitério já não comportava o
grande número de sepultamento de escravos, o governador do Rio de
Janeiro, Ayres de Saldanha Albuquerque Coutinho Matos e Noronha
(1719-1725), determinou que fosse criado um cemitério somente para
pretos novos no largo da Igreja de Santa Rita, recém-criada, o que
foi feito. Por volta de 1769, o vice-rei, Marquês do Lavradio
(1769-1779), ordenou a mudança do mercado da Rua Direita, na Praça
XV, para a Rua do Valongo (hoje Camerino). Ele não queria que os
escravos no estado lastimável em que se achavam ao desembarcar
fossem vistos na entrada principal da cidade. E quando o mercado de
escravos foi transferido para a Praia do Valongo, o Cemitério dos
Pretos Novos foi junto, porque a proximidade com o porto facilitava
o transporte dos corpos.
Clamor da sociedade – Em 1821, o Cemitério dos Pretos Novos já
estava cercado de casas, e os moradores começaram a reclamar com o
príncipe regente D. Pedro e outras autoridades dos “males à saúde” e
do mau cheiro que exalava dos corpos insepultos. De acordo com
documentos encontrados por Júlio César no Arquivo-Geral da Cidade,
no dia 13 de março de 1830 foi feito o último sepultamento no
Cemitério dos Pretos Novos.
Na opinião do historiador, o fim do cemitério não foi determinado
apenas pela pressão higienista, clamor da imprensa e dos moradores.
“A hipótese mais aceita”, disse, “é a de que, após o acordo que
proibia o tráfico negreiro firmado com a Inglaterra (a famosa “lei
para inglês ver”), o Brasil não teria como justificar a existência
do cemitério de recém-chegados da África.”
Irmandades – Segundo Júlio César, “o Cemitério dos Pretos Novos é
exemplo dos muitos sofrimentos impostos por um sistema escravista,
em que milhares foram sepultados sem ter o direito aos preceitos das
culturas tradicionais africanas”. Os que conseguiram sobreviver, no
entanto, se filiaram a irmandades negras, que arrecadavam recursos e
garantiam aos compatriotas enterros em condições mais dignas.
Um novo sentido à vida
A descoberta do sítio arqueológico
sob o chão que pisava mudou completamente a vida da família
Guimarães: Merced, Petrúcio e três filhas. Até 1998, eles conviveram
com buracos em toda a área interna e nas laterais da casa, e com
gente entrando e saindo. Quando as pedras começaram a rolar das
paredes escavadas, o jeito foi mudar para o auditório da sua pequena
empresa de prestação de serviços ao Porto do Rio, lá mesmo na Gamboa.
E a todo tempo ouviam da prefeitura que a casa seria desapropriada.
Em 2000, não suportando mais a situação, os Guimarães retomaram as
obras na casa. “Durante quatro meses eu e minhas filhas adolescentes
peneiramos terra dos buracos e separamos ossos. Em 2001, as
arqueólogas sumiram e até hoje ninguém mais voltou”, disse Merced.
Os ossos foram levados para o IAB, e lá permanecem em caixas de
papelão. Oficialmente, os estudos sobre o sítio arqueológico foram
esquecidos.
Apesar de todos os transtornos, Merced se apaixonou pela história
dos escravos enterrados na Gamboa e decidiu, sem contar com ajuda
oficial ou de ONGs, expor as fotos dos ossos e artefatos
desenterrados em grandes painéis na sua própria sala de visitas e
abrir para visitação pública. Mais tarde, comprou duas lojas coladas
à sua casa e criou o Instituto de Pesquisas e Memorial dos Pretos
Novos, que tem como diretores pessoas ligadas ao movimento negro da
cidade, como Antonio Carlos Rodrigues da Silva. O espaço se
transformou numa referência para esses militantes, artesãos e
artistas plásticos. Na região, que além da Gamboa abriga os bairros
da Saúde, Santo Cristo e os Morros da Previdência e da Conceição, a
casa de nº 36 é uma referência da cultura afro, onde sempre são
realizadas festas e cultos africanos, e lugar seguro para guardar
objetos e outras relíquias da escravidão no Brasil. É comum se
chegar lá e encontrar pessoas como Maria da Graça Lau e Cristina
Sebastiana, legítimas representantes de grupos de jongo no Estado do
Rio de Janeiro. Respira-se naqueles cômodos um cheiro forte de amor
e fraternidade.

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