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Sebastião Salgado

Cemitério dos Pretos Novos

Quilombo de Candeia Mestre Sala Dos Mares
 

 

 
O Mestre-Sala dos Mares
(Regina Rocha)
     

Composição: João Bosco/Aldir Blanc

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar
com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo
 

 
*O que esta sublinhado foi modificado pela censura durante a ditadura para: Na figura de um bravo feiticeiro; Conhecido como o navegante negro; E ao acenar pelo mar na alegria das regatas;

dos santos entre cantos e chibatas; Inundando o coração do pessoal do porão; Que a exemplo do feiticeiro gritava então; Salve o navegante negro.

 
Mas você sabe quem foi o Almirante Negro?

Ele protagonizou, há cem anos, um importante episódio na história das lutas dos marinheiros – 90% negros – contra as degradantes condições de trabalho e o uso de violentos castigos corporais: a Revolta da Chibata. O fato histórico, ocorrido no dia 22 de novembro de 1910, foi lembrado no carnaval de 2010 no Cordão da Bola Preta e em meio ao enredo da Vila Isabel.

Mas as comemorações no ano do centenário da Revolta da Chibata vão além. A Secretaria de Igualdade Racial da CUT-Rio está preparando uma série de atividades para estimular as entidades sindicais a comemorar o centenário da revolta e planeja exposições e debates.

Armada brasileira

Há cem anos, militares se rebelaram contra castigos físicos adotados pela Marinha num movimento conhecido como Revolta da Chibata, liderados pelo Almirante Negro, o marinheiro João Cândido.

Na noite da revolta, em 22 de novembro de 1910, João Cândido e 2.300 marinheiros tomaram grandes embarcações da armada.

Filho de ex-escravos, ele nasceu em 1880, no Rio Grande do Sul, e morreu em 1969, no Rio de Janeiro. Em 1895 fez sua primeira viagem como aprendiz de marinheiro.

Em 1909 foi à Grã-Bretanha para acompanhar a construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro e tomou conhecimento da revolta havida em 1905 dos marinheiros russos do encouraçado Potemkin, por melhores condições de trabalho.

250 chibatadas!

Apesar de abolido pelo regime republicano, o uso da chibata como castigo na Armada brasileira continuava a critério dos oficiais.

Centenas de marujos, 90% negros, tinham o corpo retalhado pela chibata. Baixos soldos e má alimentação foram os outros ingredientes para o crescimento do clima de tensão.

"Não por coincidência, esse costume brutal repetia as atrocidades da escravidão, pois cerca de 90% dos marinheiros eram negros", argumentou Paulo Paim ao defender a instituição do ano de 2010 como "Ano Nacional do Centenário da Revolta da Chibata", em projeto de lei de 2009 no Senado.

No movimento para pôr fim à chibata na Marinha, os marinheiros tentaram até uma audiência de João Cândido com o presidente da República Nilo Peçanha. Mas acabaram por decidir pela realização de um motim, que foi antecipado pela punição com 250 chibatadas em um marinheiro. O castigo continuou com os homens desmaiados.

No dia 22 de novembro de 1910 eclodiu a revolta. João Cândido deu início ao levante, assumindo o comando do encouraçado Minas Gerais, e sendo designado à época pela imprensa, Almirante Negro.

Por quatro dias, os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro voltaram seus canhões para a Capital Federal.

A rebelião terminou com o compromisso do governo de abolir de vez a chibata e anistiar os integrantes da revolta. Mas o governo traiu o acordo: João Cândido e os outros foram presos, expulsos e alguns até mortos. Saiu da Marinha sem qualquer direito.

Pobre e esquecido, descriminado até o fim da sua vida, mais de 60 anos depois da revolta, aquele que um dia foi mencionado como Almirante Negro morreu pobre, de câncer, no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, em 1969, aos 89 anos.

Herói de histórias

Mas memória de João Cândido foi resgatada pelos compositores João Bosco e Aldir Blanc no samba "O mestre-sala dos mares", de 1975. O álbum em quadrinhos Chibata!, dos cearenses Olinto Gadelha (texto) e Hemeterio (desenhos), também resgata a saga do herói: "A gente conhecia superficialmente a história do João Cândido, e, quando acabamos a pesquisa, descobrimos um herói do mesmo porte do Tiradentes", diz Hemeterio.





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