Ele protagonizou, há cem
anos, um importante episódio na história
das lutas dos marinheiros – 90% negros –
contra as degradantes condições de
trabalho e o uso de violentos castigos
corporais: a Revolta da Chibata. O fato
histórico, ocorrido no dia 22 de
novembro de 1910, foi lembrado no
carnaval de 2010 no Cordão da Bola Preta
e em meio ao enredo da Vila Isabel.
Mas as
comemorações no ano do centenário da
Revolta da Chibata vão além. A
Secretaria de Igualdade Racial da
CUT-Rio está preparando uma série de
atividades para estimular as entidades
sindicais a comemorar o centenário da
revolta e planeja exposições e debates.
Armada
brasileira
Há cem
anos, militares se rebelaram contra
castigos físicos adotados pela Marinha
num movimento conhecido como Revolta da
Chibata, liderados pelo Almirante Negro,
o marinheiro João Cândido.
Na
noite da revolta, em 22 de novembro de
1910, João Cândido e 2.300 marinheiros
tomaram grandes embarcações da armada.
Filho
de ex-escravos, ele nasceu em 1880, no
Rio Grande do Sul, e morreu em 1969, no
Rio de Janeiro. Em 1895 fez sua primeira
viagem como aprendiz de marinheiro.
Em
1909 foi à Grã-Bretanha para acompanhar
a construção de navios de guerra
encomendados pelo governo brasileiro e
tomou conhecimento da revolta havida em
1905 dos marinheiros russos do
encouraçado Potemkin, por
melhores condições de trabalho.
250
chibatadas!
Apesar
de abolido pelo regime republicano, o
uso da chibata como castigo na Armada
brasileira continuava a critério dos
oficiais.
Centenas de marujos, 90% negros, tinham
o corpo retalhado pela chibata. Baixos
soldos e má alimentação foram os outros
ingredientes para o crescimento do clima
de tensão.
"Não
por coincidência, esse costume brutal
repetia as atrocidades da escravidão,
pois cerca de 90% dos marinheiros eram
negros", argumentou Paulo Paim ao
defender a instituição do ano de 2010
como "Ano Nacional do Centenário da
Revolta da Chibata", em projeto de lei
de 2009 no Senado.
No
movimento para pôr fim à chibata na
Marinha, os marinheiros tentaram até uma
audiência de João Cândido com o
presidente da República Nilo Peçanha.
Mas acabaram por decidir pela realização
de um motim, que foi antecipado pela
punição com 250 chibatadas em um
marinheiro. O castigo continuou com os
homens desmaiados.
No dia
22 de novembro de 1910 eclodiu a
revolta. João Cândido deu início ao
levante, assumindo o comando do
encouraçado Minas Gerais, e sendo
designado à época pela imprensa,
Almirante Negro.
Por
quatro dias, os navios de guerra
Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro
voltaram seus canhões para a Capital
Federal.
A
rebelião terminou com o compromisso do
governo de abolir de vez a chibata e
anistiar os integrantes da revolta. Mas
o governo traiu o acordo: João Cândido e
os outros foram presos, expulsos e
alguns até mortos. Saiu da Marinha sem
qualquer direito.
Pobre
e esquecido, descriminado até o fim da
sua vida, mais de 60 anos depois da
revolta, aquele que um dia foi
mencionado como Almirante Negro morreu
pobre, de câncer, no Hospital Getúlio
Vargas, no Rio de Janeiro, em 1969, aos
89 anos.
Herói
de histórias
Mas
memória de João Cândido foi resgatada
pelos compositores João Bosco e Aldir
Blanc no samba "O mestre-sala dos
mares", de 1975. O álbum em quadrinhos
Chibata!, dos cearenses Olinto
Gadelha (texto) e Hemeterio (desenhos),
também resgata a saga do herói: "A gente
conhecia superficialmente a história do
João Cândido, e, quando acabamos a
pesquisa, descobrimos um herói do mesmo
porte do Tiradentes", diz Hemeterio.